MÉTODO ALEGÓRICO
A Escola de Alexandria foi influenciada pelo platonismo e pelo filósofo judeu Filo de Alexandria, buscando o sentido espiritual e alegórico por trás da letra. O texto literal era visto muitas vezes apenas como uma casca externa ou como símbolo de verdades espirituais mais profundas. Essa escola ficou conhecida como herética por distanciar-se da posição quiliástica. Contudo, existe uma tendência de retorno a essa escola por causa de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), que ganhou respeito ao utilizar uma forma moderada dessa metodologia. Em sua obra A Cidade de Deus, ele interpreta o Livro de Apocalipse como a luta entre cristandade e o mal.
Fica evidente que o problema desse método é que, ao espiritualizar ou alegorizar o texto bíblico, afasta-se do objetivo principal que o autor deseja transmitir. É preciso compreender que a alegoria, como figura de linguagem, tem o seu lugar na literatura; contudo, como método de interpretação, representa um risco, exceto quando o próprio texto a exige. J. Dwight Pentecost classifica os perigos dessa metodologia: “o primeiro grande perigo do método alegórico é que ele não interpreta as Escrituras”; e o “…segundo grande perigo no método alegórico: a autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente do intérprete. A interpretação pode, então, ser distorcida pelas posições doutrinárias do intérprete, pela autoridade da igreja à qual ele pertence, por seu ambiente social e por sua formação, além de uma enormidade de outros fatores”.
Os seguidores do alegorismo constituem o aliancismo, conhecido também como “teologia do pacto”. De modo geral, eles interpretam que a aliança de Deus com Israel e com a Igreja é uma só. Nesse caso, as promessas de Deus para Israel aplicam-se à Igreja, pois esta o substitui — daí também serem conhecidos pela alcunha de “teologia da substituição”. Para sustentar essa interpretação, utilizam o método alegórico.
MÉTODO LITERAL DISPENSACIONALISTA UTILIZADO PELA ASSEMBLEIA DE DEUS
Em contrapartida, a Escola de Antioquia utilizava o método histórico-gramatical do texto. Esse sistema hermenêutico é baseado no sensu literalis, que significa “sentido literal”. Portanto, busca-se interpretar o texto da Sagrada Escritura considerando o seu contexto histórico, cultural e linguístico. Por meio desse método, busca-se evitar interpretações subjetivas e distorcidas, garantindo uma compreensão mais precisa das mensagens e profecias divinas contidas na Bíblia. A interpretação literal é fundamental para preservar a integridade das Escrituras e para a compreensão adequada do seu conteúdo. É importante destacar aqui que o método literal não despreza as figuras de linguagem existentes nos textos profético-apocalípticos.
Já o sistema de interpretação dispensacionalista normativo clássico utiliza o sensu literalis para interpretar o texto bíblico. Esse sistema não foi inventado por John Nelson Darby (1800-1882), tampouco aprendido por ele com Margaret MacDonald; também não foi criação de Scofield ou Chafer. Esse sistema era utilizado mesmo antes deles, conforme aponta Charles Ryrie:
Justino Mártir (110-165), enunciou o conceito de diferentes programas de Deus;
Irineu (130-200), falou de quatro pactos: sob Adão, Noé, Moisés e Jesus;
Clemente de Alexandria (150-220), distinguiu quatro dispensações: de Adão, Noé, Abraão e Moisés;
Joaquim de Fiore (1135-1202). Seu esquema tripartido da História (eras da Lei, da Graça e futura) antecipa de modo rudimentar o dispensacionalismo sistematizado por Darby;
Pierre Poiret (1646-1719). Apresenta sete dispensações: Infância (até o Dilúvio); Meninice (até Moisés); Adolescência (até os profetas); Juventude (até a vinda de Cristo); Fase Adulta (algum tempo depois da primeira vinda); Velhice (tempo da decadência do homem); Renovação de Todas as Coisas (Milênio);
John Edwards (1637-1716). Ministro calvinista publicou em 1699 uma obra densa, em dois volumes, sobre as dispensações: A Compleat History or Survey of All the Dispensations;
Isaac Watts (1674-1748). Escreveu sobre as dispensações e as definiu como “sábias e santas constituições da vontade Deus e seu governo”;
Por fim, foi Darby quem de fato sistematizou o dispensacionalismo.
DISPENSACIONALISMO PROGRESSIVO
Em 20 de novembro de 1986, em Atlanta, Geórgia, surgiu um grupo de estudos que posteriormente produziu artigos e livros sobre o assunto dispensacional. No entanto, foi em 1991 que o termo “Dispensacionalismo Progressivo” foi formalmente adotado. O dispensacionalismo progressivo entende que a Igreja é uma continuação de Israel, uma entidade única; portanto, não representa uma interrupção no plano de Deus para Israel, mas sim uma progressão desse plano. De maneira geral, essa escola defende a vinda de Cristo em um evento único e pós-tribulacional, demonstrando ser um sistema hermenêutico-exegético contrário ao Dispensacionalismo Normativo Clássico — apesar do nome parecido —, flertando mais diretamente com o Aliancismo.
CONCLUSÃO
Conclui-se, portanto, que a escolha do método hermenêutico define diretamente a teologia resultante. A espiritualização exacerbada herdada de Alexandria tende a obscurecer as promessas originais das Escrituras e a fundir distinções bíblicas fundamentais. Em contrapartida, a tradição literalista de Antioquia — que fundamenta o dispensacionalismo desde os pais da Igreja até sua sistematização por Darby — provou ser a salvaguarda contra interpretações arbitrárias. Assim, em um cenário em que novas propostas como o Dispensacionalismo Progressivo reaproximam-se do Aliancismo, reafirma-se a relevância do método histórico-gramatical como a única abordagem capaz de respeitar a intenção do autor e a fidelidade da revelação divina.
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